sexta-feira, 7 de junho de 2024

"Cachimbo da paz." Nos anos “teens” (adolescência:“thirteen to nineteen”, dos 13 aos 19) tudo range, feito sapato novo. A pilha está tinindo, soltando faíscas. É só triscar. O passado inexiste. O futuro é apenas o dia de amanhã, ou mais, uma longínqua ilha imperscrutável, arrodeada por um mar virgem de dias, semanas, meses e anos que ainda teremos que singrar. Só importa o agora! Gostaríamos de ter o dom da ubiquidade…calma, eu explico; significa estar presente em lugares diferentes ao mesmo tempo. Foi assim. Quem foi jovem sabe. Tudo reluz refletindo a sua juventude. Mas vamos ao que eu quero relatar. Vou omitir nomes e rostos, não tenho a permissão de publicá-los. As datas não serão precisas. Os fatos ocorreram há 57 anos, eu tinha 17 anos. Fiz as malas, despedi-me da família sem lamúrias e fui. Fui na condição de estudante estrangeiro, morar com uma família americana. Eu não era o único. Comigo, dez outros jovens cearenses foram selecionados para vivenciar esse intercâmbio, cada um num estado diferente. De Fortaleza ao Rio de Janeiro, cidade que já conhecia, fui de ônibus, de lá à Nova Iorque, avião e novamente ônibus até Chicago. A família que me hospedou morava num subúrbio. O verão se despedia e em poucos dias a piscina no quintal da casa ficou pronta ou quase. O meu “irmão americano” Bill (nome fictício), quase sempre de bermudas desfiadas, camiseta e descalço, foi receptivo. Sua turma era meio “bad boys”. Saíamos em grupo para os rolés noturnos, visitando as amigas em suas casas, quase sempre com os pais ausentes. Tudo podia acontecer, acontecia e aconteceu. Percebi um dos “bad boys” fazendo algo em uma das residências que me preocupou. Fiquei com uma orelha atras da pulga ou vice-versa. Noites depois, no meio de uma delas, eu senti uma forte dar no pé da barriga, do lado direito. Fui bater na porta do quarto dos pais. “Mom” me deu uma aspirina e ao amanhecer fui levado a um hospital, fui operado de apêndicite. Coisa de DNA, todos nós, cinco irmãos fomos submetidos à essa cirurgia. O pior vem agora. Mas antes disso, cabe esclarecer que meus pais só souberam disso através de uma carta minha, recebida 15 dias depois. As comunicações não eram instantâneas. Agora o pior: Os estudantes do intercâmbio eram advertidos sobre o que deveriam evitar; a lista começava pela proibição expressa ao uso do “cachimbo da paz”. E foi o que me aconteceu. Ao voltar para casa após a internação de cinco dias do pós operatório, as primeiras nevascas caiam. Era fim de tarde e o Bill com alguns amigos estavam no quintal. Chamaram-me com sinais de fumaça, não tão indígenas. Foi mal, mas não obedeci à todas as orientações, simulei uma dor no local da recente operação e entrei. No dia seguinte revelei o ocorrido para alguém que sinalizou ao Programa e em poucas horas houve a minha mudança de casa. Fiquei na casa de um dos membros do Programa, até que outra família fosse encontrada. O que ocorreu. Permaneci no mesmo subúrbio e colégio. Algum constrangimento houve, de vez em quando...mas isso é outro capítulo da série. Não havia o bullying naqueles tempos. Por parte dos “bad boys”, que estudavam no meu mesmo colégio; um ou outro esbarrão nos corredores. The end. Junho 2024 Mauricio Cals